Friday, March 11, 2005

11/4



Nunca más!

Wednesday, March 09, 2005

"Lietuva" — Recordações da Terra da Chuva



Recordar-me desses tempos parece de um sonho não vivido.
Sentia um conforto muito especial, um calor interior muito próprio numa terra tão fria. Recordo-me com gosto, sinceramente. Essa terra no norte Báltico deu-me uma vivência única...
Aprendi que viver com pouco até é bom. Mas rodeado de amizades que se faziam ao contornar o quarteirão. De facto não tinha nada a perder em ser ousado e sorrir para a primeira pessoa que via. Pouco importava em me iludir com as pessoas, raramente tive a sensação de imprudência. Claro, eu era uma pessoa estranha numa terra estranha, muito diferente da minha. Mas a simplicidade fascinou-me, podia ser o que era. Pouco importava os haveres de cada um. Pouco importava o que os outros pensavam. Sentia-me numa redoma de vidro fosco juntamente com a juventude que me rodeava. Mas não tenho ressentimentos. Era a minha margem de manobra, mas mais livre do que sou hoje. Tive medo no início, apaixonei-me depois. Não sei se volto lá, à terra do Rapaz de Oiro – que era um francamente piroso...
Actualmente custa-me olhar para as fotografias que tirei na altura. Umas centenas. Não me tem apetecido ser nostálgico, mas enfim, foi um momento importante da minha vida que não me posso esquecer. Essa meia dezena de meses que me desloquei para esse novo mundo é um livro único de memórias. Um manual de sobrevivência, ou de vivências, que me dá alguma força... Tenho que escrever esse livro e oferecer a quem mais gosto.
Quando lá voltar, adorava ver as mesmas pessoas e as mesmas coisas nos mesmos lugares. Mas acredito que aquele mundo, essa terra do sol ao norte da terra da chuva, evolui mais depressa que a minha terra na "ocidental praia lusitana". Somos tão diferentes e ainda bem que o somos. Mas apavora-me a hipótese de não voltar a ver esses rostos de olhos claros, de pele pálida, que me habituei a conviver durante meses. Tenho que lá voltar para rescrever o que vivi se a tolice da minha vida o permitir.

Monday, March 07, 2005

Os campos lavrados de utopia



"Marchavam soldados numa praça vermelha, com espigas de trigo nas espingardas. A estrela ao rubro regozijava-se com a força do trabalho e com a virtude do ideal. Os canhões davam salvas de sageza e o povo enchia o quarteirão com bandeiras e flores. Era a primavera de uma nação. Era a glória de um povo que já não "era". Era o êxtase de um sonho que a realidade quis encomendar à filosofia. Um eterno romance de vontades e valores que a História de circunstância se surpreendeu.
Nos campos lavrados de utopia, ceifavam-se males pela raiz. Semeavam-se verões e preveniam-se de invernos. Dançavam-se pelas noites brancas ao som de balalaicas e os cantores estremeciam as pedras da calçada com pianos colocados.
Na fábrica imponente das chaminés até ao céu, os homens partiam, com o seu martelo de virtude, as pedras negras da inveja. Como alquimistas laicos e puros, transformavam o minério em fogo ardente, que alimentava os fogões, os corações, em pleno inverno, enquanto deitados, jazidos em conforto, se amavam diluídos no cansaço laboral.
Os comboios uivavam como os lobos da tundra. O fumo fazia desenhos proféticos no céu, alimentando o sonho da sua conquista. Voar, voar como a estrela imponente e vermelha que se regozija de esperança e fomenta o esforço que é humano. Era a saga dos heróis que são todos, por mais fracos que sejam, a alicerçar gerações vindouras. Mas como milhões e milhões de gotas de água formam um rio, assim o povo constrói o monumento em sua homenagem, no cume da esperança, nas margens da sabedoria.
O filho de Ilya agitara as multidões jazidas na lama da miséria. Gente morta por não ter pão, a alimentar guerras em vão e submissos a histórias de amor manchadas de pólvora cruel e invejosa. A verdade! Essa verdade que se expele de bocas famintas e oprimidas, cedo seria a voz da revolução ascendente da geração cosmonauta do futuro. Iriam rasgar céus em prol da memória eterna. Iriam voar em pistas olímpicas levando a chama augusta ao cimo do novo Olimpo de todos os homens e mulheres!
Além do infinitamente grande, iriam observar o infinitamente pequeno para gerar a força tão forte como a energia dos punhos erguidos de um povo.

Silêncio. Um terrível silêncio. A luz da janela apagou-se na madrugada profunda.

O súbito silêncio que surgiu ao fechar os olhos para sempre do filho de Ilya, embalsamou a memória dos proletários. Do silêncio surgiram lágrimas que escorriam das montanhas, que se transformavam em sangue e em pavor, pois a terra estremecia de incerteza. E a dor dos punhos que arrastavam, em vão, o frágil ideal que a tirania entretanto sabotara, tão rapidamente, pouco a pouco se desintegrou. E o povo, abandonado, correu para a mais primária das sobrevivências, matando o mais fraco ou indefeso, com as mesmas ferramentas que construíram o ideal: o da foice da vida e o do martelo da virtude!"

A agonia da indiferença ao pouco que resta do melhor que há em nós é preocupante. Acima dos líderes está o povo que os sustenta. Matar em nome de seja quem for e enganar sumariamente a História é uma certidão de óbito para o futuro. As profecias apocalípticas enchem o apetite dos mentores do medo. Esse poder, com essa mascara "democrática", é tão sanguinário e perverso como as piores das ditaduras que a memória ainda conhece.
Os ideais devem ser reinventados e a cor da esperança deverá ter o tom que mais gostamos. O filho de Ilya poderá ter sido ingénuo, mas a História não tem o direito de o crucificar. Alias, a História não tem o direito de crucificar ninguém!