Wednesday, March 09, 2005

"Lietuva" — Recordações da Terra da Chuva



Recordar-me desses tempos parece de um sonho não vivido.
Sentia um conforto muito especial, um calor interior muito próprio numa terra tão fria. Recordo-me com gosto, sinceramente. Essa terra no norte Báltico deu-me uma vivência única...
Aprendi que viver com pouco até é bom. Mas rodeado de amizades que se faziam ao contornar o quarteirão. De facto não tinha nada a perder em ser ousado e sorrir para a primeira pessoa que via. Pouco importava em me iludir com as pessoas, raramente tive a sensação de imprudência. Claro, eu era uma pessoa estranha numa terra estranha, muito diferente da minha. Mas a simplicidade fascinou-me, podia ser o que era. Pouco importava os haveres de cada um. Pouco importava o que os outros pensavam. Sentia-me numa redoma de vidro fosco juntamente com a juventude que me rodeava. Mas não tenho ressentimentos. Era a minha margem de manobra, mas mais livre do que sou hoje. Tive medo no início, apaixonei-me depois. Não sei se volto lá, à terra do Rapaz de Oiro – que era um francamente piroso...
Actualmente custa-me olhar para as fotografias que tirei na altura. Umas centenas. Não me tem apetecido ser nostálgico, mas enfim, foi um momento importante da minha vida que não me posso esquecer. Essa meia dezena de meses que me desloquei para esse novo mundo é um livro único de memórias. Um manual de sobrevivência, ou de vivências, que me dá alguma força... Tenho que escrever esse livro e oferecer a quem mais gosto.
Quando lá voltar, adorava ver as mesmas pessoas e as mesmas coisas nos mesmos lugares. Mas acredito que aquele mundo, essa terra do sol ao norte da terra da chuva, evolui mais depressa que a minha terra na "ocidental praia lusitana". Somos tão diferentes e ainda bem que o somos. Mas apavora-me a hipótese de não voltar a ver esses rostos de olhos claros, de pele pálida, que me habituei a conviver durante meses. Tenho que lá voltar para rescrever o que vivi se a tolice da minha vida o permitir.

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