
"Marchavam soldados numa praça vermelha, com espigas de trigo nas espingardas. A estrela ao rubro regozijava-se com a força do trabalho e com a virtude do ideal. Os canhões davam salvas de sageza e o povo enchia o quarteirão com bandeiras e flores. Era a primavera de uma nação. Era a glória de um povo que já não "era". Era o êxtase de um sonho que a realidade quis encomendar à filosofia. Um eterno romance de vontades e valores que a História de circunstância se surpreendeu.
Nos campos lavrados de utopia, ceifavam-se males pela raiz. Semeavam-se verões e preveniam-se de invernos. Dançavam-se pelas noites brancas ao som de balalaicas e os cantores estremeciam as pedras da calçada com pianos colocados.
Na fábrica imponente das chaminés até ao céu, os homens partiam, com o seu martelo de virtude, as pedras negras da inveja. Como alquimistas laicos e puros, transformavam o minério em fogo ardente, que alimentava os fogões, os corações, em pleno inverno, enquanto deitados, jazidos em conforto, se amavam diluídos no cansaço laboral.
Os comboios uivavam como os lobos da tundra. O fumo fazia desenhos proféticos no céu, alimentando o sonho da sua conquista. Voar, voar como a estrela imponente e vermelha que se regozija de esperança e fomenta o esforço que é humano. Era a saga dos heróis que são todos, por mais fracos que sejam, a alicerçar gerações vindouras. Mas como milhões e milhões de gotas de água formam um rio, assim o povo constrói o monumento em sua homenagem, no cume da esperança, nas margens da sabedoria.
O filho de Ilya agitara as multidões jazidas na lama da miséria. Gente morta por não ter pão, a alimentar guerras em vão e submissos a histórias de amor manchadas de pólvora cruel e invejosa. A verdade! Essa verdade que se expele de bocas famintas e oprimidas, cedo seria a voz da revolução ascendente da geração cosmonauta do futuro. Iriam rasgar céus em prol da memória eterna. Iriam voar em pistas olímpicas levando a chama augusta ao cimo do novo Olimpo de todos os homens e mulheres!
Além do infinitamente grande, iriam observar o infinitamente pequeno para gerar a força tão forte como a energia dos punhos erguidos de um povo.
Silêncio. Um terrível silêncio. A luz da janela apagou-se na madrugada profunda.
O súbito silêncio que surgiu ao fechar os olhos para sempre do filho de Ilya, embalsamou a memória dos proletários. Do silêncio surgiram lágrimas que escorriam das montanhas, que se transformavam em sangue e em pavor, pois a terra estremecia de incerteza. E a dor dos punhos que arrastavam, em vão, o frágil ideal que a tirania entretanto sabotara, tão rapidamente, pouco a pouco se desintegrou. E o povo, abandonado, correu para a mais primária das sobrevivências, matando o mais fraco ou indefeso, com as mesmas ferramentas que construíram o ideal: o da foice da vida e o do martelo da virtude!"
A agonia da indiferença ao pouco que resta do melhor que há em nós é preocupante. Acima dos líderes está o povo que os sustenta. Matar em nome de seja quem for e enganar sumariamente a História é uma certidão de óbito para o futuro. As profecias apocalípticas enchem o apetite dos mentores do medo. Esse poder, com essa mascara "democrática", é tão sanguinário e perverso como as piores das ditaduras que a memória ainda conhece.
Os ideais devem ser reinventados e a cor da esperança deverá ter o tom que mais gostamos. O filho de Ilya poderá ter sido ingénuo, mas a História não tem o direito de o crucificar. Alias, a História não tem o direito de crucificar ninguém!
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