Chorei! Chorei agora. Lembrei-me de amigos, de momentos, de lugares. Até de músicas:
_"Volver!"
Lembrei-me da Cécile, do Shailen, do Thomas, da Anett, da Ling, da Ruta, da Manuela, do Tiago, Marcus, Alberto e outros mais. Queria voltar ao mesmo lugar, com as mesmas pessoas, só um dia que fosse. Seria o dia mais feliz da minha vida. Tão feliz como aqueles que passamos juntos. No meio de neve, no inverno. No meio das flores, do verde, dos sorrisos, do calor dos risos, na primavera.
Que saudades. Saudades tão intensas que despertam lágrimas. Tanta ternura, amizade, partilha... no outro lado do mundo. No fim do mundo! Mas vivemos juntos, bem juntos. Amigos. Família. Choro por, talvez, não vos ver outra vez. Todos juntos, comigo, no mesmo lugar.
Choro também por outro lugar. O lugar! Jerusalém. A minha cidade, que nasci antes de ter nascido. Que morrerei depois de morrer. O centro do mundo, o lugar dos lugares. Um cântico dos cânticos.
Jerusalém. A terra que me abraçou. Que me levasse até lá, comigo, todos aqueles que desejava estar. Os do passado. Que fossem futuro. Que fosse um povo, abraçado, para uma terra que é prometida. A minha. A nossa. Que saudades de tanta coisa. De amigos, de momentos, de lugares.
Wednesday, October 31, 2007
Saturday, October 13, 2007
Wednesday, August 29, 2007
"Crónica do Falar Lisboetês" por Vital Moreira
Esta crónica foi publicada no Jornal Público, de 4 de Janeiro de 2000, por Vital Moreira, pessoa que eu estimo muito pelas suas virtudes intelectuais e políticas.
Eu penso que esta crónica está noutros blogs, mas entendi como relevante mostrar aos raríssimos visitantes deste blog este texto muito interessante.
Estou longe de ser um "expert" (até escrevo em inglês) da língua portuguesa. Mas vou tentando, pelo menos, dignificar um pouquinho esta língua de qualidades fantásticas e... bastante susceptível. E falando de susceptibilidade, que tal parar com a conversa, de treta, que tudo o que é português é uma porcaria! Não é nacionalismo, nem nada do que se pareça, mas já me irritam, até certos brasileiros (já não bastam os portugueses), dizerem que este país é um punhado de terra sem virtudes, sem valores e sem cultura. Quem quiser a destruir que destruam, mas nos estádios de futebol ou a ver a TVI... Os outros, que gostam de ser de onde são, portugueses, pelo menos deixem-nos ser e deixem-nos cultivar. Vale a pena deixar heranças com virtudes, são bem mais valiosas do que as fortunas.
Convido-os então a ler esta crónica.
"De súbito, o homem do quiosque de Lisboa a quem eu pedira os meus jornais habituais interpelou-me:
- O senhor é do Norte, não é?
Respondi-lhe que não, que nasci na Bairrada e que resido há quase 40 anos em Coimbra. Fitou-me perplexo. Logo compreendi que do ponto de vista de Lisboa tudo o que fique para cima de Caneças pertence ao Norte, uma vaga região que desce desde a Galiza até às portas da capital. Foi a minha vez de indagar porque é que me considerava oriundo do Norte. Respondeu de pronto que era pela forma como eu falava, querendo com isso significar obviamente que eu não falava a língua tal como se fala na capital, que para ele, presumivelmente, não poderia deixar de ser a forma autorizada de falar português.
Foi a primeira vez que tal me aconteceu. Julgava eu que falava um português padrão, normalmente identificado com a forma como se fala "grosso modo" entre Coimbra e Lisboa e cuja versão erudita foi sendo irradiada desde o século XVI pela Universidade de Coimbra, durante muitos séculos a única universidade portuguesa. Afinal via-me agora reduzido à patológica condição de falante de um dialecto do Norte, um desvio algo assim como a fala madeirense ou a açoriana.
Na verdade - logo me recordei -, não é preciso ser especialista para verificar as evidentes particularidades do falar alfacinha dominante. Por exemplo, "piscina" diz-se "pichina", "disciplina" diz-se "dichiplina". E a mesma anomalia de pronúncia se verifica geralmente em todos os grupos "sce" ou "sci": "crecher" em vez de "crescer", "seichentos" em vez de "seiscentos", e assim por diante.
O mesmo sucede quando uma palavra terminada em "s" é seguida de outra começada por "si" ou "se". Por exemplo, a expressão "os sintomas" sai algo parecido com "uchintomas", "dois sistemas" como "doichistemas". Ainda na mesma linha a própria pronúncia "de Lisboa" soa tipicamente a "L'jboa".
Outra divergência notória tem a ver com a pronúncia dos conjuntos "-elho" ou" -enho", que soam cada vez mais como "-ânho" ou "-âlho", como ocorre por exemplo em "coelho", "joelho", "velho", frequentemente ditos como "coâlho", "joâlho" e "vâlho".
Uma outra tendência cada vez mais vulgar é a de comer os sons, sobretudo a sílaba final, que fica reduzida a uma consoante aspirada. Por exemplo: "pov'" ou "continent'", em vez de "povo" e de "continente". Mas essa fonofagia não se limita às sílabas finais. Se se atentar na pronúncia da palavra "Portugal", ela soa muitas vezes como algo parecido com "P'rt'gâl".
O que é mais grave é que esta forma de falar lisboeta não se limita às classes populares, antes é compartilhada crescentemente por gente letrada e pela generalidade do mundo da comunicação audiovisual, estando por isso a expandir-se, sob a poderosa influência da rádio e da televisão.
Penso que não se trata de um desenvolvimento linguístico digno de aplauso. Este falar português, cada vez mais cheio de "chês" e de "jês", é francamente desagradável ao ouvido, afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras.
A propósito do português do Brasil, vou contar uma pequena história que se passou comigo. Na minha primeira visita a esse país, fui uma vez convidado para um programa de televisão em Florianópolis (Santa Catarina). Logo me avisaram que precisava de falar devagar e tentar não comer os sons, sob pena de não ser compreendido pelo público brasileiro, que tem enormes dificuldades em compreender a língua comum, tal como falada correntemente em Portugal. Devo ter-me saído airosamente do desafio, porque, no final, já em "off", o entrevistador comentou: "O senhor fala muito bem português." (Queria ele dizer que eu tinha falado um português inteligível para o ouvido brasileiro.) Não me ocorreu melhor do que retorquir:
- Sabe, fomos nós que o inventámos...
Por vezes conto esta estória aos meus alunos de mestrado brasileiros, quando se me queixam de que nos primeiros tempos da sua estada em Portugal têm grandes dificuldades em perceber os portugueses, justamente pelo modo como o português é falado entre nós, especialmente no "dialecto" lisboetês corrente nas estações de televisão.
Quando deixei o meu solícito dono do quiosque lisboeta do início desta crónica, pensei dizer-lhe em jeito de despedida, parafraseando aquele episódio brasileiro:
- Sabe, a língua portuguesa caminhou de norte para sul...
Logo desisti, porém. Achei que ele tomaria a observação como uma piada de mau gosto. Mas confesso que não me agrada nada a ideia de que, por força da força homogeneizadora da televisão, cada vez mais portugueses sejam "colonizados" pela maneira de falar lisboeta. E mais preocupado ainda fico quando penso que nessa altura provavelmente teremos de falar em inglês para nos entendermos com os espanhóis e - ai de nós! - talvez com os próprios brasileiros..."
Por Vital Moreira
Eu penso que esta crónica está noutros blogs, mas entendi como relevante mostrar aos raríssimos visitantes deste blog este texto muito interessante.
Estou longe de ser um "expert" (até escrevo em inglês) da língua portuguesa. Mas vou tentando, pelo menos, dignificar um pouquinho esta língua de qualidades fantásticas e... bastante susceptível. E falando de susceptibilidade, que tal parar com a conversa, de treta, que tudo o que é português é uma porcaria! Não é nacionalismo, nem nada do que se pareça, mas já me irritam, até certos brasileiros (já não bastam os portugueses), dizerem que este país é um punhado de terra sem virtudes, sem valores e sem cultura. Quem quiser a destruir que destruam, mas nos estádios de futebol ou a ver a TVI... Os outros, que gostam de ser de onde são, portugueses, pelo menos deixem-nos ser e deixem-nos cultivar. Vale a pena deixar heranças com virtudes, são bem mais valiosas do que as fortunas.
Convido-os então a ler esta crónica.
"De súbito, o homem do quiosque de Lisboa a quem eu pedira os meus jornais habituais interpelou-me:
- O senhor é do Norte, não é?
Respondi-lhe que não, que nasci na Bairrada e que resido há quase 40 anos em Coimbra. Fitou-me perplexo. Logo compreendi que do ponto de vista de Lisboa tudo o que fique para cima de Caneças pertence ao Norte, uma vaga região que desce desde a Galiza até às portas da capital. Foi a minha vez de indagar porque é que me considerava oriundo do Norte. Respondeu de pronto que era pela forma como eu falava, querendo com isso significar obviamente que eu não falava a língua tal como se fala na capital, que para ele, presumivelmente, não poderia deixar de ser a forma autorizada de falar português.
Foi a primeira vez que tal me aconteceu. Julgava eu que falava um português padrão, normalmente identificado com a forma como se fala "grosso modo" entre Coimbra e Lisboa e cuja versão erudita foi sendo irradiada desde o século XVI pela Universidade de Coimbra, durante muitos séculos a única universidade portuguesa. Afinal via-me agora reduzido à patológica condição de falante de um dialecto do Norte, um desvio algo assim como a fala madeirense ou a açoriana.
Na verdade - logo me recordei -, não é preciso ser especialista para verificar as evidentes particularidades do falar alfacinha dominante. Por exemplo, "piscina" diz-se "pichina", "disciplina" diz-se "dichiplina". E a mesma anomalia de pronúncia se verifica geralmente em todos os grupos "sce" ou "sci": "crecher" em vez de "crescer", "seichentos" em vez de "seiscentos", e assim por diante.
O mesmo sucede quando uma palavra terminada em "s" é seguida de outra começada por "si" ou "se". Por exemplo, a expressão "os sintomas" sai algo parecido com "uchintomas", "dois sistemas" como "doichistemas". Ainda na mesma linha a própria pronúncia "de Lisboa" soa tipicamente a "L'jboa".
Outra divergência notória tem a ver com a pronúncia dos conjuntos "-elho" ou" -enho", que soam cada vez mais como "-ânho" ou "-âlho", como ocorre por exemplo em "coelho", "joelho", "velho", frequentemente ditos como "coâlho", "joâlho" e "vâlho".
Uma outra tendência cada vez mais vulgar é a de comer os sons, sobretudo a sílaba final, que fica reduzida a uma consoante aspirada. Por exemplo: "pov'" ou "continent'", em vez de "povo" e de "continente". Mas essa fonofagia não se limita às sílabas finais. Se se atentar na pronúncia da palavra "Portugal", ela soa muitas vezes como algo parecido com "P'rt'gâl".
O que é mais grave é que esta forma de falar lisboeta não se limita às classes populares, antes é compartilhada crescentemente por gente letrada e pela generalidade do mundo da comunicação audiovisual, estando por isso a expandir-se, sob a poderosa influência da rádio e da televisão.
Penso que não se trata de um desenvolvimento linguístico digno de aplauso. Este falar português, cada vez mais cheio de "chês" e de "jês", é francamente desagradável ao ouvido, afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras.
A propósito do português do Brasil, vou contar uma pequena história que se passou comigo. Na minha primeira visita a esse país, fui uma vez convidado para um programa de televisão em Florianópolis (Santa Catarina). Logo me avisaram que precisava de falar devagar e tentar não comer os sons, sob pena de não ser compreendido pelo público brasileiro, que tem enormes dificuldades em compreender a língua comum, tal como falada correntemente em Portugal. Devo ter-me saído airosamente do desafio, porque, no final, já em "off", o entrevistador comentou: "O senhor fala muito bem português." (Queria ele dizer que eu tinha falado um português inteligível para o ouvido brasileiro.) Não me ocorreu melhor do que retorquir:
- Sabe, fomos nós que o inventámos...
Por vezes conto esta estória aos meus alunos de mestrado brasileiros, quando se me queixam de que nos primeiros tempos da sua estada em Portugal têm grandes dificuldades em perceber os portugueses, justamente pelo modo como o português é falado entre nós, especialmente no "dialecto" lisboetês corrente nas estações de televisão.
Quando deixei o meu solícito dono do quiosque lisboeta do início desta crónica, pensei dizer-lhe em jeito de despedida, parafraseando aquele episódio brasileiro:
- Sabe, a língua portuguesa caminhou de norte para sul...
Logo desisti, porém. Achei que ele tomaria a observação como uma piada de mau gosto. Mas confesso que não me agrada nada a ideia de que, por força da força homogeneizadora da televisão, cada vez mais portugueses sejam "colonizados" pela maneira de falar lisboeta. E mais preocupado ainda fico quando penso que nessa altura provavelmente teremos de falar em inglês para nos entendermos com os espanhóis e - ai de nós! - talvez com os próprios brasileiros..."
Por Vital Moreira
Monday, August 27, 2007
A filosofia de jogo
A filosofia, suposta e vulgarmente (ou invulgarmente), significa qualquer coisa como amor (philos) ao conhecimento (sophia)! Foi isso que eu aprendi na escola. Imaginem! Falava-se (já não me lembro muito bem) dos Pré-Socráticos, dos Sofistas, dos Helénicos, dos Humanistas, dos Iluministas, dos Existencialistas, dos Materialistas e et cetera. Era uma disciplina com piada, sem dúvida, porque até o mais cabula da sala de aula (penso eu) até gostava de saber qualquer coisa, fosse para impressionar a namorada ou para apurar os discursos nas reuniões das juventudes partidárias. Fantástico. Todavia, para uma "mente fresca" como a de um adolescente, a filosofia é algo que não é indiferente, nem que seja pela "chatisse" dos textos ou da voz monocórdica do "setôr". É evidente que juventude não é sinónimo de futilidade, ou "Geração Rasca" (citando a expressão rasca da Doutora Manuela Ferreira Leite). Claro que há jovens estudiosos e intelectuais, mas tendencialmente ridicularizados pela particularidade... de saber.
Hoje, até um universitário tem que ter cuidado em saber. Pois o facilitismo e a futilidade são as virtudes da actualidade, porque fomentam a economia (claro que me refiro à cultura de massas). As elites do conhecimento, pelo contrário, enclausuram-se como se fossem grupos maçónicos... curiosamente solicitados, talvez "às escondidas", pelos falcões do poder, intitulados, curiosamente, como democratas!
A verdadeira filosofia de hoje é a "filosofia de jogo". Mais importante que a "seca" do "Banquete ou do Amor" de Platão. A "filosofia de jogo" motiva os telespectadores e os leitores dos jornais mais vendidos, para conversarem e debaterem com os seus pares sobre a jornada de futebol do fim-de-semana anterior. Ganham "balúrdios" os filósofos da bola, ou os comentadores. Têm tempos de antena intermináveis. São notícia de manchete em qualquer órgão de comunicação social. São mais conhecidos que qualquer membro do governo e, não me admirava nada, mais que o próprio Presidente desta República.
Quando o Benfica perde um jogo é um "desastre" nacional. Gastam-se letras nos jornais com disparates para explicar o que é absolutamente ridículo. De latim na televisão e na rádio nem se fala.
Quando o Porto ganha, as palavras dos filósofos são idênticas, todavia fazendo trocadilhos de apitos com pintos e dourados com costas.
Quando o Sporting ganha ou perde nem sei qual é o discurso. Deve ser um misto de tranquilidade com gatos que fedem.
Uma comédia para poucos, um problema nacional para a maioria. E a "filosofia de jogo" lá está, para explicar, debater, calcular e... moralizar o problema nacional: o futebol.
O poder autárquico é regido pelo futebol. Bem, sejamos justos, hoje já nem tanto porque o poder judicial ocupa-se... com o futebol. Repartem-se os poderes, ou não estamos numa democracia?
Conclusão, o futebol é a essência do conhecimento nos dias de hoje, neste país que se pauta pela pequenez. É o motivo para a leitura em massa. Qual Miguel Torga (esse que até o poder político se esqueceu) comparado com qualquer treinador ou jogador de futebol como um motivo de leitura. Até as amantes vendem mais. Até as putas! Até as putas do futebol, imaginem! E os jornais? Como é possível haver tanto para preencher um jornal de "filosofia de jogo". E são pelo menos três diários (há quem diga que há mais!). E são, de longe, os que se vendem mais!
Enfim, a vida é um jogo, não de xadrez ou de virtudes, mas um jogo de futebol, onde sonhamos ser um ponta de lança enquanto adolescentes, um forte meio-campista enquanto jovens, um cauteloso defesa enquanto adultos e um experiente guarda-redes na velhice... vá lá, ainda há espaço para os criativos que driblam inesperadamente para o "coração da área" e para os mágicos que rematam em "trivela"...
Hoje, até um universitário tem que ter cuidado em saber. Pois o facilitismo e a futilidade são as virtudes da actualidade, porque fomentam a economia (claro que me refiro à cultura de massas). As elites do conhecimento, pelo contrário, enclausuram-se como se fossem grupos maçónicos... curiosamente solicitados, talvez "às escondidas", pelos falcões do poder, intitulados, curiosamente, como democratas!
A verdadeira filosofia de hoje é a "filosofia de jogo". Mais importante que a "seca" do "Banquete ou do Amor" de Platão. A "filosofia de jogo" motiva os telespectadores e os leitores dos jornais mais vendidos, para conversarem e debaterem com os seus pares sobre a jornada de futebol do fim-de-semana anterior. Ganham "balúrdios" os filósofos da bola, ou os comentadores. Têm tempos de antena intermináveis. São notícia de manchete em qualquer órgão de comunicação social. São mais conhecidos que qualquer membro do governo e, não me admirava nada, mais que o próprio Presidente desta República.
Quando o Benfica perde um jogo é um "desastre" nacional. Gastam-se letras nos jornais com disparates para explicar o que é absolutamente ridículo. De latim na televisão e na rádio nem se fala.
Quando o Porto ganha, as palavras dos filósofos são idênticas, todavia fazendo trocadilhos de apitos com pintos e dourados com costas.
Quando o Sporting ganha ou perde nem sei qual é o discurso. Deve ser um misto de tranquilidade com gatos que fedem.
Uma comédia para poucos, um problema nacional para a maioria. E a "filosofia de jogo" lá está, para explicar, debater, calcular e... moralizar o problema nacional: o futebol.
O poder autárquico é regido pelo futebol. Bem, sejamos justos, hoje já nem tanto porque o poder judicial ocupa-se... com o futebol. Repartem-se os poderes, ou não estamos numa democracia?
Conclusão, o futebol é a essência do conhecimento nos dias de hoje, neste país que se pauta pela pequenez. É o motivo para a leitura em massa. Qual Miguel Torga (esse que até o poder político se esqueceu) comparado com qualquer treinador ou jogador de futebol como um motivo de leitura. Até as amantes vendem mais. Até as putas! Até as putas do futebol, imaginem! E os jornais? Como é possível haver tanto para preencher um jornal de "filosofia de jogo". E são pelo menos três diários (há quem diga que há mais!). E são, de longe, os que se vendem mais!
Enfim, a vida é um jogo, não de xadrez ou de virtudes, mas um jogo de futebol, onde sonhamos ser um ponta de lança enquanto adolescentes, um forte meio-campista enquanto jovens, um cauteloso defesa enquanto adultos e um experiente guarda-redes na velhice... vá lá, ainda há espaço para os criativos que driblam inesperadamente para o "coração da área" e para os mágicos que rematam em "trivela"...
Monday, August 13, 2007
A Solidariedade
Talvez a raiz, a essência ou o que se queira chamar, da democracia (com os seus valores fundamentais da Civilização com "C" maiúsculo) provenha das mais "velhas" Escrituras, por muito que custe aos "laicos" (que não têm nada) dos tais modernos ideólogos. Talvez, porque não sou letrado o suficiente, o ser humano, como sempre, tem dificuldade em reparar naquilo que é evidente, pela dependência aos dogmas e à retórica. Essa dificuldade não tem a ver com a repressão, mas com a preguiça. É mais fácil ser regido por alguém do que pela consciência individual resultante do estudo e do espírito crítico.
A Solidariedade é um pilar do desenvolvimento. Os capitalistas, ou os progressistas (da treta) ou... os REALISTAS (por oposição aos "ridículos utópicos" como os "opinion makers" os referem) insistem em achar que isso, da solidariedade, é "coisa" que impede, ou é menor, ao desenvolvimento económico. A "solidariedade", para esses, ou é jantares de beneficência de princesas divorciadas, ou concertos de músicos "podres de ricos" ou de movimentos polacos, cheios de santíssimas trindades, que não mais fizeram que transitar da repressão do "comunismo" (com muitas aspas) à repressão da "corrupção" e... da falta de solidariedade (que é coisa, pelo que consta, bastante ambígua naquele país).
A Solidariedade se não é um pilar da nossa consciência social, então "p... que pariu" ter filhos, "p... que pariu" amar (sim, amar!), "p... que pariu" estudar, "p... que pariu" sequer pensar. Se a Solidariedade é um devaneio, uma coisa de "esquerda", uma ingenuidade, então "defequemos" definitivamente para a democracia... e já agora façamos das Escrituras uma coisa "queque", assim meia erudita, meia à "armar" em caridade. Vamos à missa, ou à sinagoga ou à mesquita bater com a mão no peito, ou na testa ou no chão, ao domingo ou ao sábado ou à sexta, respectivamente, e fiquemos por aí. Nos outros dias... sejamos uns "filhos da p...", ambiciosos, obcecados pelo sucesso e pelo futuro... mas quando morrermos, voltamos à terra onde nascemos com a consciência mais pesada do que a gravidade da terra... e sem a mínima hipótese de "voltar atrás".
De facto, a Solidariedade é uma das maiores heranças que podemos dar aos nossos descendentes, a par da educação e da arte. Se não aprendermos hoje, talvez aprendam, os nossos filhos, amanhã. Eu acredito e não tenho vergonha disso.
Baruch Ashem!
En términos de reconocer la igualdad entre los hombres, "caridad" es sustituido por "solidaridad". La caridad es, frecuentemente, un medio para marginar aún más a una persona. La solidaridad, que parte del corazón, se fundamenta en la identificación con todo hombre, que se manifiesta en el acto concreto de ayudarle. Según el Rambám (Maimónides), el más alto grado de la solidaridad consiste en ayudar a un necesitado a integrarse nuevamente a la vida económica y social, auxiliándole para que consiga trabajo y vivienda, y se encamine a dignificar su vida en la sociedad.
Comentário de Rav E. Birnbaum à Parashat Reé (Dvarím Cap:26 - XVI:17)
A Solidariedade é um pilar do desenvolvimento. Os capitalistas, ou os progressistas (da treta) ou... os REALISTAS (por oposição aos "ridículos utópicos" como os "opinion makers" os referem) insistem em achar que isso, da solidariedade, é "coisa" que impede, ou é menor, ao desenvolvimento económico. A "solidariedade", para esses, ou é jantares de beneficência de princesas divorciadas, ou concertos de músicos "podres de ricos" ou de movimentos polacos, cheios de santíssimas trindades, que não mais fizeram que transitar da repressão do "comunismo" (com muitas aspas) à repressão da "corrupção" e... da falta de solidariedade (que é coisa, pelo que consta, bastante ambígua naquele país).
A Solidariedade se não é um pilar da nossa consciência social, então "p... que pariu" ter filhos, "p... que pariu" amar (sim, amar!), "p... que pariu" estudar, "p... que pariu" sequer pensar. Se a Solidariedade é um devaneio, uma coisa de "esquerda", uma ingenuidade, então "defequemos" definitivamente para a democracia... e já agora façamos das Escrituras uma coisa "queque", assim meia erudita, meia à "armar" em caridade. Vamos à missa, ou à sinagoga ou à mesquita bater com a mão no peito, ou na testa ou no chão, ao domingo ou ao sábado ou à sexta, respectivamente, e fiquemos por aí. Nos outros dias... sejamos uns "filhos da p...", ambiciosos, obcecados pelo sucesso e pelo futuro... mas quando morrermos, voltamos à terra onde nascemos com a consciência mais pesada do que a gravidade da terra... e sem a mínima hipótese de "voltar atrás".
De facto, a Solidariedade é uma das maiores heranças que podemos dar aos nossos descendentes, a par da educação e da arte. Se não aprendermos hoje, talvez aprendam, os nossos filhos, amanhã. Eu acredito e não tenho vergonha disso.
Baruch Ashem!
En términos de reconocer la igualdad entre los hombres, "caridad" es sustituido por "solidaridad". La caridad es, frecuentemente, un medio para marginar aún más a una persona. La solidaridad, que parte del corazón, se fundamenta en la identificación con todo hombre, que se manifiesta en el acto concreto de ayudarle. Según el Rambám (Maimónides), el más alto grado de la solidaridad consiste en ayudar a un necesitado a integrarse nuevamente a la vida económica y social, auxiliándole para que consiga trabajo y vivienda, y se encamine a dignificar su vida en la sociedad.
Comentário de Rav E. Birnbaum à Parashat Reé (Dvarím Cap:26 - XVI:17)
Wednesday, July 11, 2007
Carta (im)pessoal
Olá Marta,
Ás vezes detesto a tecnologia! É verdade que ela tem, como tu sabes, duas faces perante a humanidade: ou mata cada vez mais ou prolonga a vida. Tudo depende da sorte onde se nasce ou onde se cresce.
Não quero fazer um apelo ao moderno-primativismo — fingir que quero prescindir do conforto da ciência e da técnica, da democracia, da literacia —, até porque gosto do potencial da computação, das aeronaves, da conquista espacial e etc. Não sou um hipócrita, mas às vezes... detesto a tecnologia!
Se não fosse a internet, e estes "sites" de "Who's in?", provavelmente ignorava a tua existência. Tão simples como isso. Jamais teria a possibilidade de saber um pouco mais de ti pela sorte de achar piada uma fotografia tua, num "adicionar um amigo" por parte de uma pessoa que conhecemos em comum. Tal como milhões de pessoas podem ter curiosidade em conhecer-te... porque tu estás lá, a "expor" um pouco de ti, assim. Tal como eu!
Alguma vez falaríamos noutra circunstância? Tu numa vigília pelos direitos humanos na Praça da Liberdade e eu a passar por lá, por mero acaso, de mochila às costas. Olhava para ti, sorria e apresentava-me! Falava-te de Israel e dos movimentos associativos.... mostrava-te um par de trabalhos e perguntava a tua opinião. Se calhar seria giro. Tu falavas-me da tua última viagem e dos teus desafios, do teu trabalho de psicóloga e de activista. Era de certeza muito interessante. Mas quase improvável!
Contrariamente, por ser num lugar tão impessoal, como é a internet, tive a ousadia em enviar-te uma mensagem. Se não respondesses, paciência. Até podias ser ninguém... uma figura inventada por alguém! Ou podias ignorar: "mais um gajo a tentar engatar umas gajas na internet"! Seria, e é, legítimo essa realidade, numa altura em que esses factos existem e com proporções terríveis.
Mas, quando nada disto existia, esta tecnologia – e também os telemóveis – conhecia pessoas. Também, principalmente quando andava nos vinte e pouco, era ousado em conhecer. E conheci e ganhei grandes amigos assim. Também conheci pessoas que acabei por não gostar posteriormente, por me desiludirem ou por me chatear. Acontece a toda a gente.
Mas agora sou uma pessoa menos interventiva, ou melhor, menos social, já não saio tanto. Tenho muito poucos colegas e as relações profissionais são muito formais. Por isso facho-me no meu casulo e o principal pátio, ou recreio de gente, passou a ser esta janela onde lês esta mensagem! Tenho amigos, grandes amigos, que conheci por intermédio de outros ou em turmas escolares ou em qualquer lado. Falo, ou melhor, "teclo" com eles quase sempre por aqui. Vejo mais vezes o sorriso ":)" do que o verdadeiro. E às vezes fico saturado e resolvo lhes telefonar para ir tomar um café ou jantar fora. Mas nem sempre é possível e acabo por estar todos os dias com eles... sem estar. É evidente que tenho amigos a milhares de quilómetros... e às vezes estão como se estivessem aqui, embora adorasse abraça-los de vez-em-quando.
Não faço a mínima ideia da tua voz. Do teu olhar. Do movimento dos teus lábios quando sorriem. Ignoro completamente! Mas porque é que me despertaste curiosidade? És psicóloga... talvez conheças alguma teoria sobre isto. Será que um dia vou-te conhecer? Será que vou gostar de te conhecer? Será que vou ser teu amigo? Será que não vamos achar piada nenhuma um ao outro? E porque razão estou a estas horas a escrever-te isto?
Pelo menos a última questão tem uma razão: queria partilhar contigo isto que pensei. Partilhar com alguém que nunca vi, nunca ouvi, nunca cheirei nem nunca toquei. Mas tenho a sensação que existe, porque estou a pensar em ti, mesmo que não "existas"!
É nestes casos que eu às vezes detesto a tecnologia, porque o virtual tem esta crueldade. Esta dúvida de imaginar uma pessoa que gosto de forma igualmente imaginária. A cyber cultura, o efémero, é angustiante... se os "discos duros" de tudo o mundo se desligarem, perder-se-ão milhões de "amizades virtuais". E perder-te-ei para sempre!
Ás vezes detesto a tecnologia! É verdade que ela tem, como tu sabes, duas faces perante a humanidade: ou mata cada vez mais ou prolonga a vida. Tudo depende da sorte onde se nasce ou onde se cresce.
Não quero fazer um apelo ao moderno-primativismo — fingir que quero prescindir do conforto da ciência e da técnica, da democracia, da literacia —, até porque gosto do potencial da computação, das aeronaves, da conquista espacial e etc. Não sou um hipócrita, mas às vezes... detesto a tecnologia!
Se não fosse a internet, e estes "sites" de "Who's in?", provavelmente ignorava a tua existência. Tão simples como isso. Jamais teria a possibilidade de saber um pouco mais de ti pela sorte de achar piada uma fotografia tua, num "adicionar um amigo" por parte de uma pessoa que conhecemos em comum. Tal como milhões de pessoas podem ter curiosidade em conhecer-te... porque tu estás lá, a "expor" um pouco de ti, assim. Tal como eu!
Alguma vez falaríamos noutra circunstância? Tu numa vigília pelos direitos humanos na Praça da Liberdade e eu a passar por lá, por mero acaso, de mochila às costas. Olhava para ti, sorria e apresentava-me! Falava-te de Israel e dos movimentos associativos.... mostrava-te um par de trabalhos e perguntava a tua opinião. Se calhar seria giro. Tu falavas-me da tua última viagem e dos teus desafios, do teu trabalho de psicóloga e de activista. Era de certeza muito interessante. Mas quase improvável!
Contrariamente, por ser num lugar tão impessoal, como é a internet, tive a ousadia em enviar-te uma mensagem. Se não respondesses, paciência. Até podias ser ninguém... uma figura inventada por alguém! Ou podias ignorar: "mais um gajo a tentar engatar umas gajas na internet"! Seria, e é, legítimo essa realidade, numa altura em que esses factos existem e com proporções terríveis.
Mas, quando nada disto existia, esta tecnologia – e também os telemóveis – conhecia pessoas. Também, principalmente quando andava nos vinte e pouco, era ousado em conhecer. E conheci e ganhei grandes amigos assim. Também conheci pessoas que acabei por não gostar posteriormente, por me desiludirem ou por me chatear. Acontece a toda a gente.
Mas agora sou uma pessoa menos interventiva, ou melhor, menos social, já não saio tanto. Tenho muito poucos colegas e as relações profissionais são muito formais. Por isso facho-me no meu casulo e o principal pátio, ou recreio de gente, passou a ser esta janela onde lês esta mensagem! Tenho amigos, grandes amigos, que conheci por intermédio de outros ou em turmas escolares ou em qualquer lado. Falo, ou melhor, "teclo" com eles quase sempre por aqui. Vejo mais vezes o sorriso ":)" do que o verdadeiro. E às vezes fico saturado e resolvo lhes telefonar para ir tomar um café ou jantar fora. Mas nem sempre é possível e acabo por estar todos os dias com eles... sem estar. É evidente que tenho amigos a milhares de quilómetros... e às vezes estão como se estivessem aqui, embora adorasse abraça-los de vez-em-quando.
Não faço a mínima ideia da tua voz. Do teu olhar. Do movimento dos teus lábios quando sorriem. Ignoro completamente! Mas porque é que me despertaste curiosidade? És psicóloga... talvez conheças alguma teoria sobre isto. Será que um dia vou-te conhecer? Será que vou gostar de te conhecer? Será que vou ser teu amigo? Será que não vamos achar piada nenhuma um ao outro? E porque razão estou a estas horas a escrever-te isto?
Pelo menos a última questão tem uma razão: queria partilhar contigo isto que pensei. Partilhar com alguém que nunca vi, nunca ouvi, nunca cheirei nem nunca toquei. Mas tenho a sensação que existe, porque estou a pensar em ti, mesmo que não "existas"!
É nestes casos que eu às vezes detesto a tecnologia, porque o virtual tem esta crueldade. Esta dúvida de imaginar uma pessoa que gosto de forma igualmente imaginária. A cyber cultura, o efémero, é angustiante... se os "discos duros" de tudo o mundo se desligarem, perder-se-ão milhões de "amizades virtuais". E perder-te-ei para sempre!
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