Wednesday, July 11, 2007

Carta (im)pessoal

Olá Marta,
Ás vezes detesto a tecnologia! É verdade que ela tem, como tu sabes, duas faces perante a humanidade: ou mata cada vez mais ou prolonga a vida. Tudo depende da sorte onde se nasce ou onde se cresce.
Não quero fazer um apelo ao moderno-primativismo — fingir que quero prescindir do conforto da ciência e da técnica, da democracia, da literacia —, até porque gosto do potencial da computação, das aeronaves, da conquista espacial e etc. Não sou um hipócrita, mas às vezes... detesto a tecnologia!
Se não fosse a internet, e estes "sites" de "Who's in?", provavelmente ignorava a tua existência. Tão simples como isso. Jamais teria a possibilidade de saber um pouco mais de ti pela sorte de achar piada uma fotografia tua, num "adicionar um amigo" por parte de uma pessoa que conhecemos em comum. Tal como milhões de pessoas podem ter curiosidade em conhecer-te... porque tu estás lá, a "expor" um pouco de ti, assim. Tal como eu!
Alguma vez falaríamos noutra circunstância? Tu numa vigília pelos direitos humanos na Praça da Liberdade e eu a passar por lá, por mero acaso, de mochila às costas. Olhava para ti, sorria e apresentava-me! Falava-te de Israel e dos movimentos associativos.... mostrava-te um par de trabalhos e perguntava a tua opinião. Se calhar seria giro. Tu falavas-me da tua última viagem e dos teus desafios, do teu trabalho de psicóloga e de activista. Era de certeza muito interessante. Mas quase improvável!
Contrariamente, por ser num lugar tão impessoal, como é a internet, tive a ousadia em enviar-te uma mensagem. Se não respondesses, paciência. Até podias ser ninguém... uma figura inventada por alguém! Ou podias ignorar: "mais um gajo a tentar engatar umas gajas na internet"! Seria, e é, legítimo essa realidade, numa altura em que esses factos existem e com proporções terríveis.
Mas, quando nada disto existia, esta tecnologia – e também os telemóveis – conhecia pessoas. Também, principalmente quando andava nos vinte e pouco, era ousado em conhecer. E conheci e ganhei grandes amigos assim. Também conheci pessoas que acabei por não gostar posteriormente, por me desiludirem ou por me chatear. Acontece a toda a gente.
Mas agora sou uma pessoa menos interventiva, ou melhor, menos social, já não saio tanto. Tenho muito poucos colegas e as relações profissionais são muito formais. Por isso facho-me no meu casulo e o principal pátio, ou recreio de gente, passou a ser esta janela onde lês esta mensagem! Tenho amigos, grandes amigos, que conheci por intermédio de outros ou em turmas escolares ou em qualquer lado. Falo, ou melhor, "teclo" com eles quase sempre por aqui. Vejo mais vezes o sorriso ":)" do que o verdadeiro. E às vezes fico saturado e resolvo lhes telefonar para ir tomar um café ou jantar fora. Mas nem sempre é possível e acabo por estar todos os dias com eles... sem estar. É evidente que tenho amigos a milhares de quilómetros... e às vezes estão como se estivessem aqui, embora adorasse abraça-los de vez-em-quando.
Não faço a mínima ideia da tua voz. Do teu olhar. Do movimento dos teus lábios quando sorriem. Ignoro completamente! Mas porque é que me despertaste curiosidade? És psicóloga... talvez conheças alguma teoria sobre isto. Será que um dia vou-te conhecer? Será que vou gostar de te conhecer? Será que vou ser teu amigo? Será que não vamos achar piada nenhuma um ao outro? E porque razão estou a estas horas a escrever-te isto?
Pelo menos a última questão tem uma razão: queria partilhar contigo isto que pensei. Partilhar com alguém que nunca vi, nunca ouvi, nunca cheirei nem nunca toquei. Mas tenho a sensação que existe, porque estou a pensar em ti, mesmo que não "existas"! 
É nestes casos que eu às vezes detesto a tecnologia, porque o virtual tem esta crueldade. Esta dúvida de imaginar uma pessoa que gosto de forma igualmente imaginária. A cyber cultura, o efémero, é angustiante... se os "discos duros" de tudo o mundo se desligarem, perder-se-ão milhões de "amizades virtuais". E perder-te-ei para sempre!